Agressividade e sexualidade são forças presentificadas na vida de todas/os nós. Para o projeto colonial, essa condição da vida como força imanente e processual ganha contornos outros. Na colonização essas forças são transformadas em recalque branco e o manejo dessas forças torna-se questão do Outro colonial, a ser exterminado. Nossa aposta, então, será descolonizar tais forças, retomando-as como potência. A raiva, tal qual o tesão, podem se transformar em apostas criativas na construção de outros mundos possíveis, onde a energia presente nesses fluxos podem organizar-se e/ou desorganizarmos no encontro com a diferença.
O racismo é uma experiência psicológica do indizível e do irracional (KILOMBA, 2019; FANON, 2008). É incompreensível cognitivamente, embora seja sentida por sensações do corpo. O racismo é uma dor corpórea, dói como experiência traumática, dói como necessidade de significar uma trama irracional. O corpo experimenta aquilo que é da ordem do incompreensível.
Pensadoras/es, como Geranilde Costa e Silva (2019), têm estudado o racismo como uma experiência que se aproxima dos sintomas do stress pós traumático: experiência traumática, dura, irracional e que coloca a vida em risco. O racismo é um trauma.
Shirley Anne Tate, pensadora do Reino Unido, em seu artigo Descolonizando a raiva: a teoria feminista negra e a prática nas universidades do Reino Unido (2019) tensiona o conceito de raiva e de mulher negra raivosa, associando raiva à dor psicológica institucional: “A raiva, como dor psicológica institucional, pode ser também produtiva e agenciadora quando percebemos que ela está enraizada em resposta às injustiças racistas” (TATE, 2019, p. 184). Nesse artigo ela também utiliza o termo (Wo)man traduzido para “homem(ulher)-centrismo” provocando a reflexão acerca dos feminismos brancos e os processos de silenciamento que a branquitude produz através de homens e mulheres. Shirley, então, traz à cena duas concepções urgentes que precisam ser visitadas: tensiona o conceito de raiva e tensiona o feminismo branco. Para ela:
O feminismo negro nos permite construir uma consciência e uma cultura alternativas (TROUILLOT, 1995), em que a raiva/dor é repetida como uma reclamação em vez de sofrimento e é uma ferramenta analítica para descolonizar o saber, a atitude, o afeto, a prática e as construções antimulher negra do feminismo do(a) homem(ulher). (TATE, 2019, p. 186).
Ao longo do seu artigo, a pensadora denuncia o feminismo branco supremacista que reforça o estereótipo da mulher negra raivosa. A mulher negra raivosa é construção da branquitude para apagar a crítica feminista negra. O que a mulher branca não quer ouvir, ao silenciar a mulher negra? Seu pacto com a branquitude enquanto lugar de privilégio e poder. Essa dor psicológica institucional é também localizada no corpo. No ranger dos dentes, por exemplo: “São os meus dentes que sentem o terror, a infelicidade, a solidão e o pavor enquanto o meu coração se recusa a lidar com esse fardo psicológico materializado” (Tate, 2019, p. 187). Tate enfatiza que não nasceu uma rangedora de dentes, mas foi transformada em uma.
Grada Kilomba (2019) pontua que o racismo é uma dor corpórea. Enquanto experiência psicológica do indizível e do irracional, o racismo é algo que não se compreende cognitivamente mas é sentido no corpo. A dor no corpo é experienciada como necessidade de significar o trauma irracional. O racismo é o encontro com o irracional. Para Fanon:
Era a raiva; eu era odiado, detestado, desprezado, não pelo vizinho da frente ou pelo primo materno, mas por toda uma raça. Estava exposto a algo irracional. Os psicanalistas dizem que não há nada de mais traumatizante para a criança do que o contacto com o racional. Pessoalmente eu diria que, para um homem que só tem como arma a razão, não há nada de mais neurotizante do que o contato com o irracional. (FANON, 2008, p. 110).
Audre Lorde (2020), pensadora estadunidense, escreve sobre um episódio de racismo que sofreu na infância, a tentativa de elaboração do ato irracional faz com que a cena seja revisitada. Com sua mãe no metrô, senta-se ao lado de uma mulher que a repele, procurando distanciar-se de Audre:
Ela contorce a boca enquanto me encara, depois baixa os olhos, levando junto meu olhar (…) Não entendo o que ela vê de tão horrível entre nós no assento – talvez uma barata. Mas me transmitiu o horror (…) Tenho medo de dizer algo à minha mãe, porque não sei o que fiz. Olho discretamente para minha calça. Será que tem alguma coisa nela? Aconteceu algo que eu não entendo, mas que nunca vou me esquecer. Os olhos dela. As narinas dilatadas. O ódio. (LORDE, 2020, p. 186).
Enfatizamos, portanto, que o contato com o racismo é o contato com o irracional: “Fomos socializadas a respeitar mais o medo do que nossas necessidades de linguagem e significação, e enquanto esperamos em silêncio pelo luxo supremo do destemor, o peso desse silêncio nos sufocará” (Lorde, 2020, p. 55). Atenuar algumas de nossas diferenças não nos imobiliza, mas o silêncio sim. O silêncio imobiliza e nos aproxima da morte. A fala, ao contrário, recompensa, porque há vida e “o que me é mais importante deve ser dito, verbalizado e compartilhado” (idem, p. 51). Falar e escrever operam como políticas contra o silenciamento e por conseguinte, contra a morte.
Medo de ser ridicularizada, de ser estranha ou de ser equivocada são alguns exemplos que Tate nos traz que a paralisam. Ela então faz o exercício de nos convidar a descolonizar o conceito de raiva e direcioná-lo enquanto potência criadora e erótica.

Sobre os usos do erótico, peço parceria novamente à Audre Lorde. Para ela, “o erótico é um recuso intrínseco a cada uma de nós, localizado em um plano profundamente feminino e espiritual” (LORDE, 2020, p. 67). Fonte energética, criativa e satisfatória, a erótica e o que nomearei ao longo dessa escrita como tesão, “não diz respeito apenas ao que fazemos; ele diz respeito à intensidade e à completude do que sentimos no fazer” (idem, p. 69).
Como força vital, o erótico é um convite à qualidade afetiva em todos os movimentos de nossas vidas: falar, escrever, dançar, amar, trabalhar. Para compreender essa dimensão erótica teremos que prescindir da dicotomia espiritual – político, “pois a ponte que os conecta é formada pelo erótico – o sensual -, aquelas expressões físicas, emocionais e psíquicas do que é mais profundo e mais forte e mais precioso dentro de cada uma de nós quando compartilhado: as paixões do amor, em seus significados mais profundos” (idem, 70).
Compartilhar intimamente o gozo, entendido em seu aspecto amplo, e “ressaltar de forma franca e destemida a minha capacidade para o gozo” (idem, p. 71) é conectar-se com uma erótica compartilhada criativa que antecede mudanças genuínas. “Essa intensa comunhão tem frequentemente precedido a articulação de ações conjuntas antes impossíveis” (idem, p. 74).
É uma convocatória para uma experiência radical e sensível do sentir. Quando nos conectamos à essa energia encarnada, sentida, pulsante, quando compartilhamos o tesão – que é um zona intensiva e qualitativa – toda nossa existência transmuta-se em uma experiência desejante, não confundamos isso com romantismo, pois o tesão é uma experiência radical de movimento, de sentir, de articulação e envolve o exercício da potência de vida em suas forças ativas. Em suma, exercer essa potência é a própria finalidade de sua existência. A qualidade afetiva é tão maior quanto mais é exercida, essa é a sua única função: exerce-se plenamente pelos poros e furos (ou apesar deles):
E esse saber profundo e insubstituível da minha capacidade para o gozo acaba por exigir que minha vida inteira seja vivida com a compreensão de que tal satisfação é possível, e de que ela não precisa ser chamada de casamento, nem de deus, nem de vida eterna. (LORDE, 2020, p. 71).
Erótico, portanto, como o que temos de mais criativo, forte e profundo, como o amor, como a escrita. A escrita é uma das formas de viver o erótico, maneira pela qual escolhemos nomear essa qualidade afetiva: “E não existe, para mim, nenhuma diferença entre escrever um bom poema e caminhar sob o sol junto ao corpo de uma mulher que eu amo” (idem, p. 73). Escrever é afirmar existência, é contar nossa situada versão de mundo para compor com outras histórias. Gloria Anzaldua (2000), pensadora chicana, fala da potência da escrita na afirmação de outros mundos e de sua importância para afirmar suas versões de mundos. Grada Kilomba (2019), pensadora portuguesa, traz a dimensão da escrita como ato político, escrita como possibilidade de tornar-se sujeita/o e não objeto, narrar e escrever a própria história emerge como resistência ao projeto colonial que objetifica e silencia:
Às vezes eu temo escrever.
A escrita se transforma em medo,
Para que eu não possa escapar de tantas
Construções coloniais.
Nesse mundo,
Eu sou vista como um corpo que
Não pode produzir conhecimento,
Como um corpo fora do lugar.
Eu sei que, enquanto escrevo,
Cada palavra escolhida por mim
Será examinada
E, provavelmente, deslegitimada.
Então, por que eu escrevo?
Eu tenho que fazê-lo
Eu estou incrustada numa história
De silêncios impostos,
De vozes torturadas,
De línguas interrompidas por
Idiomas forçados e
Interrompidas falas.
Estou rodeada por
Espaços brancos
Onde, dificilmente, eu posso adentrar e permanecer.
Então, por que eu escrevo?
Escrevo, quase como na obrigação,
Para encontrar a mim mesma.
Enquanto eu escrevo,
Eu não sou o
Outro
Mas a própria voz
Não o objeto,
Mas o sujeito.
Torno-me aquela que descreve
E não a que é descrita
Eu me torno autora,
E a autoridade
Em minha própria história
Eu me torno a oposição absoluta
Ao que o projeto colonial predeterminou
Eu retorno a mim mesma Eu me torno: existo.
Grada Kilomba – enquanto eu escrevo
Enquanto teclava as letras para escrever esse poema em minha escrita, escrevo “silência” ou invés de “silêncio”, mas também ao invés de “ciência”. Esse ato bem sucedido sintetiza o que de outra forma é tão difícil escrever, isso que escapa e escapa porque é preciso ser colocado no mundo atua como uma pista do que tem sido escrito durante toda essa escrita. É sobre esse/essa silência: “Eu estou incrustada nessa história de silência impostos”, assim ficaria a frase não fosse o momento logo após e a constatação: “o corpo fala” trazendo para o cibermundo “o dedo digita”, enfim, algo escapa. Isso que escapa é a vida que pulsa em nossos corpos e reverbera em nossas escritas. É essa escrita-corpo que proponho, essa é a nossa versão de mundo, é esse alimento que ofertamos nas encruzas: palavras encarnadas e vivas, com raiva e tesão.
Ana Carolina Dias Ramos — Paraibana, angoleira e psicóloga clínica formada pela Universidade Federal Fluminense (2012-2017), Mestra em Psicologia Social pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2019-2021). Possui experiências nos dispositivos de saúde mental, tendo atuado em Hospital Psiquiátrico, Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) e Residência Terapêutica. Possui também percurso como pesquisadora acadêmica, compondo Congressos Internacionais e Encontros Nacionais, ampliando-se para além da área da psicologia. Autora do capítulo “E/u moderno” do livro “A psicologia com os pés nas encruzilhadas” publicado pela Editora Dialética. Propositora do projeto “Corpo: território que possibilita experienciar a vida na Terra”, contemplado pela Funarte. Já atuou como Acompanhante Terapêutica e também como doula. Atualmente tem intensificado suas pesquisas nos efeitos subjetivos da colonização e em práticas corporais e contra coloniais.
As pinturas que acompanham o ensaio são acrílicas da artista Amanda Nunes intituladas Equilíbrio (2022), em destaque, e Equilíbrio (2022), ao longo da matéria.